Estou fazendo quinze dias numa agência, substituindo o redator de férias e descobri porque ela foi grande e hoje entregou metade do seu espaço por falta de clientes e pessoal, ou seja, porque está encolhendo. Peguei uma campanha para uma revenda de motos Honda. Para a ação, definimos o nome de Minhas Primeira Honda e contempla o jovem que acaba de tirar a carta para dirigir.É portanto para vender motos de baixa cilindrada a baixo custo. Desenvolvi um comercial para TV barato, com fotos de crianças de mão dadas, dando selinho, sendo levadas pela mãe à escola e finalmente fotos do jovem vibrando com a moto. Texto: primeiro beijpo, primeira namorada, primeiro dia de aula e primeira moto! O diretor de arte, velhinho como tudo na agência, condenou: eles não vão querer romantismo, eles querem é ver a moto e o preço no comercial! sentença fatal! fim da boa ideia. Imaginou se isso tivesse acontecido com o Olivetto e o primeiro sutiã da Valisere? Fim de uma ideia que vinga há mais de trinta anos como o comercial do século, e que alavancou Washington e a W?
Segundo exemplo: me pediram uma campanha de spots para uma entidade de segurança de trânsito e que representa o mercado de peças de reposição com qualidade. Lembrei da Rádio Camanducaia, uma criação absolutamente inesquecível e vitoriosa de Odair Batista, consagrado locutor e criativo do rádio, que fez da JP sucesso absoluto de crítica e de audiência nos anos 70. Bom, criei spots baseados nela, sendo um como locutor "vendendo" a oficina do amigo. Diz o domo da agência, um veterano que não perdeu o ego inflado e que não consegue reconhecer o mérito do Odair, nem a minha proposta como boa: ah, não pode dar nome à oficina. É perigoso, pode criar saia justa! Saia justa com quem? Afinal, temos oficinas do Chicão ou do Zé, por todo esse Brasil. Outra: spot cpm cartas de ouvintes, e eu batizei a ouvinte de Flor do Campo. Cara Flor do Campo, pra dar uma graça. Não, não pode, fica muito "sei lá". E assim foi, até o fim , ele foi tirando a graça de cada spot, transformando tudo em uma geléia geral, sem gosto e sem graça. Por medo de ousar, medo de sugerir, medo de perder o cliente, medo de valorizar o que grandes criativos tiveram a coragem de criar ede botar no ar, detonando a ideia aproveitar, modernizar e valorizar uma campanha baseada num dos maiores sucessos do rádio em quase quarenta anos. Talvez porque a ideia inicial ou a de aproveitamento não tenho sido dele, sei lá.
Sabemos agora porque a agência está encolhendo e deverá sumir...porque seu gênio está velho, tem medo de ousar. Não tem coragem de levar novidades aos clientes, se autopolicia e não consegue encantar. Os clientes aprovam por falta de ousadia e inovação, e porque nunca receber nada novo em matéria de comunicação. E é por isso que a propaganda e a criatividade brasileira andam pra trás. E é por isso que, a cada dia que passa me desanimo mais e mais de continuar nessa profissão. Estamos na época da geléia geral, seja na propaganda, seja na cultura, no esporte, na educação, na política, etc. e tal.
domingo, 18 de julho de 2010
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